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Palavra Crônica

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10/03/2016

Quanto vale uma poesia?

 

 



Esses dias, recebi um telefonema, digamos, inusitado. Alguém, de uma empresa privada, ligou me perguntando se eu era poeta. Disse que sim (será?), meio acanhado. Bom, até aí, nada de tão extraordinário, afinal, de vez em quando, arrisco uns versos. O inacreditável veio em seguida: a pessoa disse que queria me contratar para escrever um poema. E me perguntou: quanto eu cobrava para escrever uma poesia? 
    
Eu sempre gostei de poesia. Lembro-me que, com tantos livros à minha disposição em casa, eu pegava umas antologias e minha imaginação viajava pelas métricas e rimas, pelas palavras difíceis dos classicistas, pelo talho preciso dos sonetistas. Eu queria ser como eles (que pretensão!), mesmo que não entendesse muito bem o que eles estavam escrevendo. E tentava, desde então, fazer as minhas próprias poesias que, claro, saíam muito aquém das daqueles mestres. Então, rasgava tudo e começava de novo!
    
Meus primeiros arroubos poéticos começaram (oficialmente) em 1994. Quero dizer, um ano antes. Capitaneava um grupo de teatro na escola e, para a semana da pátria, recebi uma "encomenda": escrever um roteiro. Pensei: "por que não em forma de poesia?". E assim nasceu a minha primeira publicação, um livreto de nome "Brasil de Ontem, Hoje e Sempre", livro temático, em quadras e versos livres. Foi a partir dele que o escritor ganhou vida, no dia 18 de maio, Ginásio Dom Bosco, Colégio Salesiano de Vitória/ES, na Feira do Livro. Não sabia nada sobre como publicar e lançar um livro. Mas tinha ganas de publicar minhas poesias.
    
De lá para cá, foram vários poemas, escritos em caderninhos que guardo até hoje. Por insistência de amigos e família, tomei coragem e lancei, em 2013, um livro com título sugestivo: "O livro dos poemas", uma antologia com minhas brincadeiras poéticas, dentre trinas, haicais, versos livres, brancos e até sonetos, metrificados, comportados e que um certo sucesso fizeram. Tanto que minha amiga e também poeta Andra Valadares me deu o prazer de musicar um deles, o chamado "Soneto da Pérola Negra", com sua lindíssima voz. 
    
Foram vários os poetas que fizeram a minha cabeça, ao longo dos anos: Bilac, Camões, Augusto dos Anjos (um choque!), Vinícius, Drummond, Bandeira, Cecília... Murilo Mendes foi uma descoberta relativamente recente, no estilo "por que não li isso antes?". Com a portuguesa Sophia de Mello Breyner Andersen foi parecido. E, claro, os franceses: Rimbaud, Verlaine e, meu preferido: Baudelaire. Lembro-me da primeira vez que li "As Flores do Mal", numa edição bilíngue. Não me recordo de quem era o tradutor. Só sei que queria ler no original, mesmo. E, acredite, leitor, quase trinta anos de francês e, até hoje, ainda me perco, deliciosamente, naquele labirinto lexical.
    
Tanta poesia me garantiu vários convites em escolas e mesas redondas. E, quase sempre, ouço aquela clássica pergunta: "Mas o que você quis dizer com isso?". Prezado leitor: bata na cara de um poeta, mas, jamais, diga isso. Poesia não é feita para se entender, é feita para se sentir: e não há nada de errado nisso. Errados somos nós que, criados em um mundo utilitarista, torcemos o nariz para a poesia, pensando ela não ter necessidade alguma. Tem sim: o homem tem necessidade do belo, daquilo que faz bem para a alma. Aliás, um estudo da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, em 2013, comprovou cientificamente que ler poesia faz bem para o cérebro. Para quem ainda acha que ela é inútil...
    
A propósito, sempre que se fala em poesia, vem à mente aquela velha pergunta: qual a diferença entre "poesia" e "poema"? Virou praxe dizer: o segundo é o texto, a primeira é o que se retira dele. Eu, no entanto, prefiro falar em "texto poético". A frase: "Come chocolates, pequena" pode parecer banal, mas vira poesia quando Fernando Pessoa se traveste de Alberto Caeiro. Não entendeu? Explico melhor: poesia é texto e fazer poesia é apenas fazer texto brincando com as palavras, colocando "imagens mentais" em quem está lendo. Posso dizer "está chovendo" como posso dizer "o céu está chorando". É a mesma coisa, só que de duas maneiras diferentes. Qual delas é poesia? 
    
Então, amigo leitor, quanto vale uma poesia? Um sorriso? Um abraço? Um aperto de mão? O suspiro de alguém que se deixou emocionar? Eu, particularmente, não faço ideia! Nunca ninguém havia feito uma pergunta tão difícil para mim! A pessoa me pediu um orçamento, que eu, sem jeito, ficaria de passar. Depois, nunca mais me ligou. Talvez por perceber a minha surpresa. Ou talvez porque, ela mesma, percebeu que a verdadeira poesia, simplesmente, não tem preço.  
 

 

 

 

 

 

 
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