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Palavra Crônica

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20/01/2016

Uma tragédia moral

 

 



Mais do que uma tragédia natural, a pedra que rolou no morro Boa Vista, em Vila Velha (ES), no dia 8 de janeiro, foi também uma tragédia moral. Ao que parece, não houve vítimas fatais, mas, creio, fomos todos vítimas de outra tragédia: a do jeitinho, da contumácia, uma pedra ainda mais pesada que a do Boa Vista e que, ao que parece, custamos querer quebrar. 

Em eras de rede social, a enorme nuvem de poeira viralizou seu horror em todos os aplicativos possíveis. Era feia e se alastrava ao som de um genuinamente capixaba "Nossa Senhora da Penha!", num espetáculo de terror que ganhou contornos nacionais. Não demorou para que o melhor das pessoas se mostrasse, com gente se arriscando em busca de vítimas, muitos, certamente, por altruísmo. 

Não demorou também para que o pior acontecesse. E ele veio de cima para baixo, como o deslizar da rocha. As autoridades que foram avisadas botavam a culpa nas anteriores, que nada fizeram a respeito, enquanto as anteriores, em seus sucessores, que tinham por dever uma providência. E, no meio do caminho, a rocha da discórdia e seu rastro de destruição. E quantas mais não deve haver, esperando para cair?

Não bastasse o mau exemplo de cima para baixo, li, horrorizado, o de baixo para cima: famílias de áreas circunvizinhas tentando se cadastrar no programa de aluguel social da prefeitura; e gente saqueando o que sobrou das casas do entorno, a despeito do drama das famílias que perderam tudo e a dificuldade histórica do brasileiro em pensar coletivamente. Afinal, não caiu pedra na minha casa. Então, eles que se danem!

No final de 2013, quando, no Espírito Santo, choveu mais que no mundo todo (!), um ex-aluno e amigo se voluntariou para ajudar as vítimas das enchentes. Ao final, ele relatou como políticos e empresários dos locais afetados guardavam para si os donativos; quando da tragédia de Mariana, comerciantes chegara a decuplicar o preço da água potável. Durante os atentados ao Bataclan, porém, taxistas de Paris levavam e traziam as pessoas sem cobrar. Será que eles são melhores do que nós? Ou será que somos um povo que ainda teima em se ver como nação? 

Leio relatos de idosos e gestantes que percebem uma certa epidemia de coma sonífero nos jovens ocupando os assentos preferenciais dos ônibus. Há pessoas que estacionam em vagas de idosos e deficientes sem nenhum pudor, quando não ocupam duas vagas de estacionamento, ao mesmo tempo. Consumir no supermercado, antes de pagar (e para não pagar), é "natural" e nossas desculpas prontas para tais situações já são tão conhecidas que uma amiga, no Uruguai, tentando entrar numa boate, ouviu do segurança, em bom portunhol: "acá no tiene jeitinho, señorita". 

O Poder Público não faz nenhum favor à sociedade ao destruir uma rocha e ressarcir as vítimas (avisar, então, nem se fala!). Cadastrar-se em um programa social, sem necessidade, é mais que ilegal: é imoral. O clichê é inevitável: é esse mesmo povo que clama contra a corrupção o que chancela as "pequenas corrupções" do dia a dia, provando que, de fato, em nossa sociedade, muitas são as pedras a serem quebradas. 
 

 

 

 

 

 

 
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