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Palavra Crônica

Histórico

 

 

10/12/2015

O rio que Bernardo enfrentou

 

 



Caboclo Bernardo (1859 - 1917) é uma dessas figuras que, infelizmente, o tempo tratou de engolir. Reconhecido herói nacional por decreto assinado pela Princesa Isabel, Bernardo José dos Santos, na madrugada de 7 de setembro de 1887, salvou 128 homens do Cruzador Imperial Marinheiro, precipitando-se ao mar na então violenta e caudalosa foz do Rio Doce. Naquela época, o rio metia medo. Hoje, ele morreu, junto com a memória de Bernardo.

Eu não tenho as mesmas lembranças que a população ribeirinha tem do velho Rio Doce. Mas me consterno junto com eles. Nascido e criado na Grande Vitória, o rio não fazia parte do meu quotidiano. Minhas memórias a seu respeito são pontuais, de quando ia passar férias na casa dos meus avós maternos, em São Mateus, cidade do norte do Espírito Santo. Nós íamos de carro, pela BR 101 Norte e obrigatoriamente passávamos por aquele rio enorme e soberano, o rei daquela paisagem. Era incrível imaginar como aquilo não era água de mar.

Ele era forte, o Rio Doce. Corria ligeiro, quebrando tudo o que vinha pela frente, incluindo a antiga ponte de Linhares, outro município ao norte do ES, passagem obrigatória para São Mateus. Já havia um tempo que ela estava condenada, cheia de rachaduras. Pudera: construída durante o período militar, não suportava mais, nem o tráfego dos veículos, que aumentara com os anos, nem a correnteza. Era a "aventura" da viagem: uma fila de carros parada, esperando a outra passar. A cada tranco no assoalho do veículo, uma ruga de tensão. E o alívio de chegar ao outro lado, enquanto a ponte nova não ficava pronta.

O fluxo de veículos não parou de aumentar, ao passo que o rio começou a diminuir, até o óbito. Foi estranho ver o Rio Doce morrer daquele jeito. Primeiro, a conta gotas. Os mananciais secando; os bancos de areia aparecendo; e o rio, pela primeira vez, sem desaguar no mar-oceano. Depois, foi de uma vez só. E a angústia, não apenas dos ribeirinhos, mas de todo o povo do Espírito Santo, em esperar a lama tóxica vir de Mariana para cá, anunciando uma morte iminente. Parecia a espera pelo fim de um paciente terminal. Ver o Rio Doce morrer foi o mesmo que ver um parente ou um amigo ir para a cova.

O rio que Bernardo enfrentou não existe mais. Ele virou um lodaçal de peixes mortos, o símbolo de como nós, seres humanos, trazemos o gérmen da destruição. Um amigo jornalista, em sua coluna, ironizou: "os 'ecochatos' tinham razão". Bem feito para nós, que não os ouvimos. Fico imaginando Caboclo Bernardo, se vivesse no século XXI, como um deles. Decerto, seu maior feito heroico seria denunciar a sanha das poluidoras; seu reconhecimento se daria por uma ONG como o Greenpeace ou um organismo das Nações Unidas. E sua memória, então morta face a um rio vivo, estaria viva, ante a um rio que, tristemente, não existe mais.
 

 

 

 

 

 

 
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