GERAL POLÍTICA POLÍCIA TURISMO CULTURA AGRONEGÓCIO ESPORTE SAÚDE CLASSIFICADOS EVENTOS GUIA COMERCIAL
BUSCA   
ESCOLHA SUA CIDADE 21 DE JANEIRO DE 2017

 

Palavra Crônica

Histórico

 

 

26/11/2015

Tempos estranhos

 

 



Já havia escrito uma vez, querido leitor, como é difícil essa vida de cronista. Às vezes, a gente não tem nada para escrever... outras, tem um monte de coisa, tudo ao mesmo tempo. Foi o que me aconteceu, nessas últimas semanas. De uma hora para outra, assunto algum virou um, que virou dois, que virou três. E, desesperado, me vi obrigado a escolher entre ódio, lama e sangue.

Gabriel Tebaldi é um menino (na sentido gentil do termo) que ainda não conheço, mas cujos escritos admiro, de longe. Estudante de História da Universidade Federal do Espírito Santo, mal tem vinte e poucos anos e já contribui regularmente para um jornal de grande circulação do meu Estado. E bem, coisa rara nesta geração. Da última vez que o li, tocou em um vespeiro: em épocas de consciência negra (essencial para lembrar a dívida histórica que temos para com os afrodescendentes, em um país de memória curta), narrou a intervenção, em uma sala de aula, de dois jovens ditos "militantes" com palavras de ódio e incitando a violência. Eu entendi o que Tebaldi quis dizer. O que estava em questão não era o racismo. O que estava em questão era o método. Em uma Universidade que demitiu um professor, acusado de racismo, por processo administrativo, com direito a contraditório e ampla defesa, valeria a incitação ao talionismo ("olho por olho, dente por dente")? Ou será que já não temos ódio demais neste mundo de hoje?

Esse mesmo ódio, aliás, parece amplificado por mil, nas redes sociais. Já não é de hoje que andam falando dos haters, gente que odeia tudo - e que adora mostrar que odeia. Fenômeno dos dias de hoje, as redes andaram dando microfone demais para inteligência de menos. Todo mundo virou especialista de tudo, incluindo lama tóxica. Enquanto Bento Rodrigues, distrito de Mariana/MG, era riscado do Mapa-múndi, e o Rio Doce dava seus últimos suspiros, gente havia - e muita - que se preocupava com o perfil alheio. Como se o simples fato de se colocar uma bandeira da França ou de Minas ou do Espírito Santo fosse mudar alguma coisa. Como se a dor obedecesse a critérios geográficos. E a minha, mais perto, fosse melhor que a deles. Enquanto os "ecochatos", na fala de um amigo jornalista, também colunista do mesmo jornal, sambavam (de salto quinze) na cara dos poluidores, os facechatos azucrinavam a nossa timeline. É o mundo do "mimimi".

Eu mesmo coloquei, sim, minha foto na bandeira azul, branca e vermelha. E bradei, bem alto, Je suis Paris. Quem me conhece sabe da minha ligação mais que afetiva com a França, a tal ponto de me considerar, com certeza, um franco-brasileiro. Isso, todavia, não me faz menos sensível à dor à minha volta. Uma bandeira é apenas um símbolo e, neste caso, da expressão máxima do ódio humano: o terrorismo. Eu me lembro de como esperávamos o século XXI, antecipando sua chegada em 2000. E, como, no ano seguinte, ele se descortinou entre fumaça, desespero e sangue das Torres Gêmeas. Li em algum lugar que a Terceira Guerra Mundial já havia começado. Polêmicas à parte, se for mesmo o caso, vivemos num campo de batalha sem front, de inimigos sem rosto. Se você acha, leitor, que todo terror usa turbante e faz abluções a Meca, reveja seus conceitos. Nos atentados de Paris, ele falava francês. Sem sotaque.

Sabe, às vezes, fico imaginando (quanta pretensão!) o que pensarão os leitores desta crônica daqui a cem anos (se ela sobreviver até lá!). São tempos estranhos, esses nossos. Certa feita, li que um dos grandes problemas do "hoje em dia" é que todo mundo, agora, pode ter uma causa para defender (o racismo, o Rio Doce, Paris, o escambau!). E, em tempos de haters e "mimimis", a minha causa sempre será melhor do que a sua. Assim, "protegido" por uma tela de computador, minha liberdade de expressão me dá o direito de detonar você. É como "pensa" a intelligentsia do Facebook. A mesma que dissemina o ódio, não importando se somos todos humanos (a despeito de franceses ou brasileiros) e se a lama do vizinho é mais tóxica que a minha. Importante é se eu escolho entre a bandeira da França, de Minas ou do ES. É, leitor... Tempos estranhos. Tempos muito estranhos.
 

 

 

 

 

 

 
2017 (1)
 

Janeiro (1)

 

 

» A bagagem de ano novo...

2016 (19)
2015 (20)
2014 (11)

 





GERAL POLÍTICA POLÍCIA TURISMO CULTURA AGRONEGÓCIO ESPORTE SAÚDE CLASSIFICADOS EVENTOS GUIA COMERCIAL
BUSCA   
Termo de Uso | Política de Privacidade | Anúncios Publicitários | Contatos

© 2009 Montanhas Capixabas - Todos os direitos reservados