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Palavra Crônica

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07/07/2015

Eu não quero ver isso

 

 



Quando anunciaram a trágica morte do cantor Cristiano Araújo, pensei: "daqui a pouco, vai rolar foto do cadáver pelo whatsapp". Não deu outra! Sinceramente, nem sabia quem era o moço. Juro. Só mais tarde vi que se tratava de um rapaz muito jovem (29 anos) e que tinha como maior hit um tal de "Bará Berê". Mas, ainda que, em termos musicais, nem ele, nem qualquer canção dele tivessem a menor importância para mim, ainda assim, elas seriam muito melhores que o espetáculo mórbido de olhar os corpos dilacerados, arrebentados do cantor e de sua namorada, feitos, aliás, por quem mais deveria ter o maior respeito aos mortos.

Foi lá longe, em 1967, que o filósofo francês Guy Debord publicou "A sociedade do espetáculo". O livro trata, grosso modo, da "debilidade espiritual" das sociedades europeias, a partir da Segunda Guerra. O homem estaria se "coisificando", principalmente face aos meios de comunicação de massa. O exemplo pode ser estendido para todos, neste início de Século XXI. Na era das selfies, redes sociais, instagram, twitter e tantas outras maravilhas tecnológicas, estamos elevando à máxima potência o "culto à personalidade" de nós mesmos. Celulares, computadores, tablets e congêneres, inicialmente, meras ferramentas de comunicação, estão, por nossa culpa, se tornando ferramentas do nosso "autismo social". Acho que o termo "debilidade espiritual" nunca esteve tão correto.

Que o bicho-homem sempre gostou de um espetáculo cruento, é fato. A História está repleta de exemplos de multidões que se aglomeravam para ver as execuções em praça pública, fossem enforcamentos, guilhotina ou fuzilamentos. O que me espanta nesta história do cantor, no entanto, é que o "espetáculo" partiu de dois funcionários da própria clínica em que o cadáver estava! Duas pessoas, aparentemente, "profissionais"! Li, inclusive, que uma pede um "tchauzinho" do colega, enquanto faz uma selfie do lado do morto. Detalhe: tudo isso enquanto o corpo de Cristiano estava com o peito aberto e se procedia a uma aspiração. O horror, meu Deus, o horror!

Os dois "funcionários" foram indiciados no crime de vilipêndio de cadáver, do art. 212 do Código Penal. Já começou, nos fóruns virtuais de Direito, a polêmica se a conduta é essa mesma ou não. A mim, não interessa. Isso deve ser punido, seja com o crime que for. E, antes de mais nada, tudo isso é imoral, é revoltante, é nojento. Atrás dessa morte, divulgada com contornos de espetáculo, existe uma família destroçada. Ao que parece, ninguém respeitou a dor dessas pessoas. Mesmo que Cristiano Araújo estivesse longe de ser um cantor erudito, ele era um ser humano e, agora, morto, sua memória merece, também, respeito, palavra, aliás, pouco lembrada em épocas de "debilidade espiritual". Em todo caso, ainda me acho muito jovem para desacreditar da espécie. Só não me mandem as fotos do corpo, por favor. Eu não quero ver isso.
 

 

 

 

 

 

 
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