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08/04/2015

Um soco na boca do estômago

 

 



Em um mundo dominado pelo medo, parece, no mínimo, estranho, que a queda de um avião tenha sido motivada pela simples vontade de um copiloto em querer levar para o buraco todo mundo com ele. É uma resposta inaceitavelmente simplista, porque revela aquilo que de mais macabro podemos ter dentro de nós. Melhor acreditar que o rapaz tinha alguma ligação com uma facção terrorista do que cogitar a simples hipótese de que, em um mundo que convida ao hedonismo eterno, exista uma tristeza que pode ser mais forte que o medo. E pode até matar.

Andreas Lubitz era um jovem alemão de 28 anos que tinha um desejo de voar. Parecia, segundo tudo o que eu li a respeito dele, um cara comum, vindo de uma típica família germânica. Morava com os pais e com uma namorada. A vida perfeita. Exceto por um mal que, ao que parecia, o consumia silenciosamente por dentro: a depressão. Dizem que ele já apresentava esgotamentos físicos e psicológicos e que tinha vários atestados médicos, a despeito da bateria de exames para que ele pudesse estar em uma cabine de um Airbus.

Alguns especialistas chamam a depressão de o mal do século. Não se sabe ao certo quais as causas da doença. Alguns dizem que ela pode ser genética, outros, causada por fatores externos, como estresse ou pressão laboral, por exemplo. Segundo dados da OMS, esse mal atinge 20% da população mundial, o que significa: se você não sofre dele, certamente, conhece ou já conheceu quem sofra. Eu já. E, infelizmente, vi algumas dessas pessoas cometerem vários desatinos, que chegavam até ao mais extremo de todos.

Apesar de amplamente divulgada, a depressão é considerada, por muita gente, como "frescura". Algo "curável" com uma boa noite de sono ou uns dias de atestado, o que é uma lástima, visto que a doença pode ser, muitas vezes, silenciosa, assintomática. A pessoa vai se fechando em copas, se entristecendo, se isolando. Ou fingindo que tudo está bem quando, no entanto, ela vai se aniquilando por dentro. Até a hora da completa destruição. Que pode ter requintes de um espetáculo macabro, quando a coisa chega ao limite.

Nunca tinha ouvido falar desse mal até o dia em que, ainda criança, ouvi de alguns adultos que alguém tinha sido internado por "depressão". Meus pais são unânimes em dizer que, "antigamente", não havia essa doença. Creio que havia, sim. No entanto, a vida de então era bem mais simples. O mundo contemporâneo, porém, é o das doenças da alma. Tudo é muito rápido, de tal arte que não parecemos acompanhar o ritmo das coisas. E assim, deixamo-nos levar por uma espiral que parece tornar inalcançável essa felicidade "enlatada" que o mundo diz que podemos comprar em gôndolas de supermercado, mas que nem todos têm crédito no cartão para isso.

Somos levados a crer que a grama do vizinho é sempre mais verde que a nossa; que a festa na casa dele é mais animada; nos esforçamos nas academias de ginástica para abreviar os efeitos inevitáveis da velhice; precisamos sempre mudar de emprego, pois se aposentar no mesmo é inaceitável... ainda que a aposentadoria seja para daqui a vinte, trinta anos; precisamos trocar de carro de ano em ano, mesmo que o que tenhamos esteja bom o suficiente; e, assim, vamos escondendo a dimensão do efêmero, parte indissociável do humano.

Lubitz é o que os psicólogos chamam de "maníaco depressivo heterodestrutivo". Sim, amigo leitor, isso existe e é o que você está pensando. É o tipo que diz "vou morrer e levar todo mundo junto". Essa história toda do voo 9525 da Germanwings soa como um soco na boca do estômago. Mas penso que, a despeito de toda dor e espanto, a terrível lição que fica é a de que já passou da hora de darmos mais importância aos tantos inimigos que criamos para culpar nossos medos e tentar resgatar o que ainda nos resta do humano.
 

 

 

 

 

 

 
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