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Palavra Crônica

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21/01/2015

O mundo todo virou Charlie

 

 



Confesso que, apesar de sempre ter sido ligado em tudo sobre a França, só conheci o "Charlie Hebdo" após o atentado. Até então, certamente, ele deve ter passado batido por mim, em alguma banca de revista por lá. Nunca fui muito ligado nessa coisa de charge, mas, sei que esse tipo de humor, corrosivo, escandaloso até, faz parte de uma antiga tradição francesa. Bem ou mal, o mundo inteiro de comoveu. E, de uma hora pra outra, todo mundo virou "Charlie". Até mesmo quem nunca tinha folheado um número. Como eu, por exemplo.

Maomé pelado, freiras se masturbando, Deus mantendo relações sexuais. Coisas assim, claro, dividem opiniões. Aqui no Brasil, país caudatário de uma tradição jesuítica, isso tudo seria impensável. Por muito menos, o humorístico "Porta dos Fundos" foi alvo da ira de setores parlamentares religiosos, por causa de um especial que satirizava a Paixão de Cristo. Lá, ao contrário, eles não ligam a mínima para isso. E, para se entender o porquê, é preciso ser um pouco "francês": país com dois mil anos de História, a França já foi a "filha mais velha do cristianismo". A religião foi tão arraigada, que houve até papas franceses, em Avignon. Após muitos séculos e uma Revolução que solapou a sociedade (e o mundo), em 1789, o francês se gaba de seu laicismo, conquistado a base de muita guilhotina. Bastante gente se diz não-religiosa ou ateia, sem o menor constrangimento. Ser religioso, aliás, é a exceção. Tanto que a maioria das pessoas se casa só no civil. Um amigo francês chegou mesmo a dizer que sátiras como a do Charlie são necessárias por uma questão de "saúde mental" porque Deus é um "conceito vazio". Tudo uma questão cultural.

Essa mesma questão, por outro lado, me fez pensar até que ponto a gente pode se valer da tal "liberdade de expressão", como princípio. Dois amigos franceses foram taxativos: "os limites da liberdade de expressão estão na lei". Para um povo de espírito libertário e laico, isso deve ser muito fácil de ser compreendido. No entanto, a França não é mais aquela. Alvo de correntes migratórias, a partir dos anos 1960, o país, hoje, se vê às voltas com uma forte cultura muçulmana, religiosa e de difícil assimilação. São os "franceses de origem", que têm orgulho de guardar língua e tradição, muitos à margem da sociedade formal. Alvos de preconceito? Indivíduos que não querem se integrar à cultura francesa? Essa é o grande imbroglio. Polêmicas à parte, essas pessoas não têm o mesmo senso de laicismo dos franceses "tradicionais" e ficaram, sim, profundamente sentidos com as sátiras do Charlie. Eles, e muita gente, que nem muçulmana é. Antes que algum desavisado se manifeste: sou totalmente contra a censura! Mas, será mesmo que essa "liberdade" pode ser gozada de modo absoluto? Ou será que, ela também, deve ser sopesada à luz de outros princípios? A propósito: tudo isso também está na lei.

Ao lado da "liberdade de expressão", existe outro princípio fundamental, o de "proteção à pessoa humana". Nada justifica tirar a vida de ninguém. Nada. Fazer justiça com as próprias mãos é crime. Homicídio é homicídio. E, por isso, o mundo todo virou Charlie. Mesmo quem nunca leu o jornal, e até quem nem gostava muito dele. Vi, inclusive, líderes de Estados com histórico de perseguição a jornalistas abraçando o presidente François Hollade, na mega-manifestação em memória das vítimas, no dia seguinte, nas ruas de Paris. Comoção? Golpe de marketing? Não sei. Só sei que um dos policiais, Ahmed Merabet, morto no atentado, também era muçulmano... e francês. Ele  recebeu a maior comenda do país, a Légion d'honneur. Em tempo: o Charlie não escrachava apenas religião, mas também política e economia. Em franca decadência, o número de semana seguinte foi vendido em 20 países com tiragem de 3 milhões de exemplares. Na capa, uma charge de Maomé dizendo: "Tudo está perdoado", num mundo que ainda não aprendeu a lidar com a intolerância.
 

 

 

 

 

 

 
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