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28/11/2014

Como é estranho perder um aluno

 

 


Em memória do ex-aluno Francisco Ladislau Neto

Eu não escolhi o magistério. Eu nasci pra ele. Sempre soube disso, quando brincava de dar aula. Queria ensinar e queria aprender. Qualquer coisa, desde que eu pudesse escrever. É estranhamente delicioso me lembrar disso agora, mas, parece que foi uma espécie de predestinação, sabe? Tanto que, a primeira coisa que procurei fazer, após me formar, foi lecionar. Meus familiares e amigos se espantaram com o quão rápido eu "peguei a manha" da sala de aula. Deve ser porque era pra ser. E, modéstia à parte, era, mesmo.

Eu ainda me lembro bem do meu primeiro dia como professor. Eu tinha 26 anos e mais parecia um aluno. Até que um deles, mais velho, ao chegar em sala de aula, antes mesmo de dizer boa noite, perguntou: "é você o professor?". Foi numa aula de francês. Aliás, achava, de início, estranho, isso: ser chamado de "professor". Hoje, até mesmo eu me chamo assim, quando leciono: "Então, você me pergunta: 'professor'..." E fico feliz quando pessoas que, às vezes, eu nem conheço direito, me chamam assim. É como se elas vissem em mim a figura do Mestre, algo, aliás, de muita responsabilidade.

Mais tarde, já formado, decidi lecionar Direito. E assim o fiz, em duas faculdades. Senti, no primeiro dia de aula, o mesmo medo. Mais tarde, seria convidado para mais cadeiras do que conseguiria dar conta: Direito e Processo do Trabalho, Direito Empresarial, Direitos Humanos e até Hermenêutica Jurídica. Também dei muita aula em cursinho para concursos públicos. Já fui paraninfo de turma, já fui homenageado, já fui convidado para muita aula da saudade... mas, felicidade, mesmo, sempre foi ver meus alunos passando na OAB ou em concursos públicos Brasil afora.

Não tenho filhos (ainda) e, por isso, sempre adotei meus alunos como tais. Considero-me, até certo ponto, um professor firme. Afinal, amar não é apenas afagar. Puxar a orelha, de vez em quando, também faz parte. Uma vez, eles me desenharam no quadro com um chicote nas mãos; Outra, numa turma com alunos que costumavam colar, elaborei uma prova diferente para cada. Detalhe: eles eram uns cinquenta. Também reduzi a nota de uma aluna em plena sala de aula, durante a correção de uma prova, no quadro.  Não, amigo leitor, meus alunos não me odeiam. Quando sofri um grave acidente grave, eles foram em peso me visitar, com muito carinho. Os que não foram, certamente, não tinham sido meus alunos ainda!

Claro que há, também, dissabores. Um deles, é perder alunos. Que eu saiba, em quase dez anos de magistério, foram dois. Infelizmente. Uma, em um horrível acidente de carro. Outro, recentemente. A bala. Duas. O suficiente para ceifar precocemente a vida de um jovem de 25 anos, recém-concursado e cheio de projetos pela frente. Eu me lembro muito bem. Foi meu aluno de francês mas, por ser, também, de formação jurídica, trocávamos algumas ideias sobre Direito. Ele disse, de início, queria ser diplomata. Depois, trocou pra juiz do trabalho. Passou pra oficial de justiça. Um "concursão". Se ele quisesse, chegaria à magistratura. Tenho certeza de que ele chegaria. Mas foi interrompido no meio do caminho.

Se eles têm armas de fogo, as minhas, são as palavras. E é por isso que eu não poderia deixar de usá-las para dizer como é estranho perder um aluno! Claro, nada se assemelha à dor da família. Mas, para nós, professores, é como se um pouco de nós fosse também. De tudo aquilo que a gente ensinou. De tudo aquilo que a gente plantou. Quero ver o sucesso dos meus alunos, não seus planos interrompidos. Porém, não quero ver impunidade. Ainda acredito na Justiça e num julgamento justo. Como também acredito na Educação como principal ferramenta de mudanças. Por isso, continuo na sala de aula. Por isso, continuo lutando com as minhas palavras.
 

 

 

 

 

 

 
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