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17/10/2014

O vice-treco do subtroço

 

 



Acho que um dos maiores problemas desta nossa Contemporaneidade pode se resumir em apenas duas letrinhas: "eu". É tanto "eu" nesses últimos anos que a gente anda perdendo até a própria identidade. É o que acho, quando escuto aquela célebre frase: "Você sabe com quem está falando?". Ainda há quem diga essas coisas, em pleno Século XXI, acredita? Ouvi, recentemente, de um terceiro a outrem. Deu até vontade de perguntar: "Por quê? Você não se lembra?" Afinal de contas, o "eu" alheio termina onde começa o meu.  Pena que, ultimamente, muita gente anda se esquecendo disso.

Antigamente, era o "nós". Gosto mais dele. Sempre o preferi porque ele me dá uma noção de pertencimento, de coletividade. A gente pensava mais no "nós" do que no "eu". Talvez porque as famílias fossem maiores, talvez porque as cidades fossem menores e todos fôssemos, de uma certa forma, forçados a viver em comunidade. Dividindo. Ou melhor: partilhando. Era um mundo muito mais simples, certamente. Mas também mais solidário. E menos solitário. Pelo menos, parecia ser.

Hoje, no entanto, vivemos a "ilusão do eu". Tudo é "personalizado", "customizado", "individualizado". É a era do "personal qualquer coisa": tem personal pra academia, roupa, cabelo, guarda-roupa, bolo e até marido. Claro, para situações de consertos em casa, que seja bem explicado! Se bem que soube de gente se oferecendo como "namorado de aluguel". Imagino que o nome disso seja "personal boyfriend (ou girlfriend)". Só pode. Só não sei se, nesse caso, sexo também pode. Isso me fez lembrar, aliás, um filme dos anos 1980, do tipo "B", com esse título. É a vida, mais uma vez, imitando a arte. Ou o pior exemplo dela.

Li esses dias, na internet, um texto maravilhoso de um blog, desses que a gente gostaria de ter escrito. A autora, uma jornalista, dizia que, nos dias de hoje, todo mundo ganhou voz, mas ninguém sabe o que falar; todo mundo ganhou imagem, mas ninguém sabe o que mostrar. Porque não há o que ser mostrado. Vivemos uma era de vazio existencial tão grande que só há duas saídas: a "selfie" ou o suicídio. A minha opinião é melhor que a sua, por isso, eu posso xingar você nas redes sociais. "Eu" tenho esse direito. O fato é que, quem não aguenta o tranco, tem preferido acabar com si próprio. Como em um estranho espetáculo, em que sair de cena é o único recurso para quem não consegue aparecer.

O grande problema dessa "ilusão do eu" é acharmos que somos especiais em tudo, ou, em última análise, que o mundo gira em nosso redor. Principalmente a partir da minha geração. Criados por pais que se esforçaram ao máximo para nos proteger e confortar, noto que muitos de nós caímos no mundo real sem saber direito os códigos, as artimanhas, as armadilhas. E, como na vida, tudo é uma questão de tentativa-erro, infelizmente, não nos ensinaram que as pessoas podem chamar nossa atenção. O que significa: o meu "eu" não é melhor que o seu. Por mais que doa saber disso.

Mário Sérgio Cortella é, na minha opinião, é um dos maiores filósofos do nosso tempo, no Brasil. Seus livros têm uma linguagem simples e ele sabe prender um público. Por coincidência, um de seus vídeos tinha justamente esse tema: "você sabe com quem está falando?" E, numa deliciosa viagem por átomos e moléculas, formação do Cosmos, dos planetas, milênios da História da Filosofia até a Idade Contemporânea, ele respondeu: somos todos o "vice-treco do subtroço". De fato, a nossa pequenez ante o Universo é tamanha que quem somos nós para pensar que nosso "eu" é assim tão grande?

Não levaremos dinheiro para o outro lado; nem títulos; nem casa, nem carro. Levaremos apenas o nosso "eu" ou, mais precisamente, o que fizemos dele. O problema é que um "eu" muito grande não cabe no caixão. É pesado demais pra levar. Ninguém vai querer carregar. Por isso que o "eu" precisa ser leve. Aliás, o mundo precisa muito resgatar isso: a "leveza". Tudo anda rápido demais e, por isso, tanta gente perdendo seu próprio "eu", sua identidade e até o senso de ridículo! Mas, principalmente, temos de aprender a botar o "eu" no seu devido lugar. Pra não passarmos o vexame de ter alguém para fazê-lo por nós.
 

 

 

 

 

 

 
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